Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto…

Reproduzimos abaixo o trecho de um precioso artigo sobre o tema, do Padre Leonel Franca:

Quem diz formação diz esforço para adquirir ou comunicar uma forma. E forma tem, aqui, não o seu significado óbvio e corrente de feitio, figura, aparência externa das coisas, forma; mas o sentido mais profundo e filosófico de perfeição, atuação de uma potencialidade anterior. Formar-se é, no sentido amplo, adquirir novas qualidades, acordar perfeições que dormiam nas possibilidades da nossa natureza. 

Nesta acepção formação é quase sinônimo de cultura, e a análise de uma destas noções esclarece a outra. A palavra cultura, aplicada ao homem, é metafórica e deriva da analogia com os campos, aos quais se aplicam primeiro e ainda se aplica em sentido próprio. Cultivai – Agricultura. Tomai uma terra no seu estado nativo; cardos e espinhos, ervilhaca e tiririca; plantas úteis e ervas venenosas – tudo em desordem e confusão – é uma terra brava selvagem. Passai-lhe o arado, arroteai-a, enriquecei-lhe com adubos apropriados a fecundidade natural e tereis jardins, pomares e plantações: é uma terra cultivada. Transportai a analogia para a nossa vida superior. Também aqui, no domínio do espírito – uma grande possibilidade da natureza, a psicologia humana com toda a riqueza de suas virtualidades latentes; a inteligência, o sentimento, a atividade. Também aqui deixai todas estas virtualidades em seu estado bruto, nativo, – tereis o homem selvagem – o bárbaro, o inculto. Aplicai-lhes o esforço, o trabalho que fecunda a natureza e desenvolveis as suas forças originais, tereis o homem culto ou cultivado. A nação que pelas suas instituições oferece aos seus membros todas as oportunidades e facilidades de se desenvolver, diz-se uma nação culta ou civilizada; do contrário, bárbara ou primitiva. 

A cultura, como vedes, oriunda, antes de tudo, a grandeza do homem mas também a sua miséria. A sua grandeza, antes de tudo, por que indica-lhe a perfectibilidade natural, a possibilidade do progresso, da conquista de níveis mais altos na realização de ideais que sempre se elevam. Por isto todas as criações culturais – a ciência e a arte, a linguagem, o direito, a moral e a religião – são apanágios da nossa espécie. Constitui um título de incontestável superioridade da nossa natureza. Na série animal, todo o problema da existência resume-se numa adaptação do organismo ao meio. No homem, a chama mortal do espírito. Os homini sublime dedit [Deu-lhe ao homem um rosto voltado para o céu (para o alto)]. 

Mas a cultura o homem não a pode tirar de si mesmo; na sua natureza, isolada, não encontra todos os elementos indispensáveis ao seu desenvolvimento. O material, os estímulos deste trabalho fecundo, vou pedi-los ao ambiente físico e social. E ei-lo em dependência da terra e da sociedade. Cada homem é assim tributário do tempo e do lugar em que vive. Os que melhor realizam o ideal humano – o gênio na linha da intelectualidade, o santo na da perfeição moral, são os que mais se elevam acima das contingências particularistas e desenvolvem em si o que há de universalmente e eternamente humano. Por isto a sua influência domina os séculos. Numa página de Homero, de Aristóteles ou de Santo Agostinho, sentimos palpitar algo de eterno, humano, que é nosso e no fundo de nós ainda hoje desperta consonâncias profundas. Ainda assim, porém, nem os heróis conseguem de todo desembaraçar-se das limitações particularizadoras do seu tempo e do seu ambiente: É esta uma indigência da nossa natureza. Não somos porém espíritos; pelo corpo, entramos no espaço e no tempo, pertencemos a um país, a uma raça, e daí sofremos inúmeras restrições nos nossos desenvolvimentos possíveis. Não nos detenhamos, porém, neste aspecto da questão, índice apenas de uma natureza menos perfeita; de um espírito imerso na matéria e que, na escala dos seres espirituais, ocupa apenas o primeiro degrau. 

Fixemo-nos de preferência na perfeição do espírito, na cultura como índice de grandeza espiritual, na possibilidade de desenvolver as nossas riquezas pela formação. 

Formação, pois, é cultura e cultura é desenvolvimento e atuação das nossas virtualidades.

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