Que a tua vida não seja uma vida estéril. Sê útil. Deixa rasto…

Jesus Cristo apresentou-se ao mundo como verdadeiro homem e ver­dadeiro Deus. O Verbo se fez carne. Ele veio, como diz São João no Prólogo do seu Evangelho, para iluminar os homens e torná-los filhos de Deus. De acordo com a sua doutrina, quem acreditar na sua divindade e na sua missão de Salvador deve receber o Ba­tismo, a fim de nascer para a vida sobrenatural pela graça divina, desse modo, merecer a vida eterna. Assim, Jesus Cristo anun­cia aos homens a Palavra da Salvação. Ele não veio propor al­guma nova escola de filosofia nem reformar os programas de estu­dos vigentes nas escolas do período helenístico do mundo greco-ro­mano ou do mundo oriental, que se beneficiavam de antiga tradição. Antes de voltar ao Pai, no dia da Ascensão, Jesus ordenou aos dis­cípulos que pregassem o Evangelho a toda a criatura através do mundo inteiro. Com isso ele impôs aos seus seguidores uma ta­refa docente limitada ao anúncio da sua doutrina, à difusão das verdades religiosas. Sem embargo disso, o Cristianismo sempre foi uma religião que inspirou a leitura e o estudo, como o comprova a sua história através dos séculos. A doutrina de Cristo e os ensina­mentos da Igreja vieram a influenciar as disciplinas escolares e a inspirar os currículos e os programas, assim como a motivar os artistas nas suas composições e a promover múltiplas instituições sociais, como hospitais, associações e escolas, em decorrência da caridade que inflamou tantas pessoas levando-as à prática das obras de misericórdia espiritual e corporal. 

“Ide e ensinai o Evangelho a toda criatura”

Quem estuda a História da Educação sabe muito bem dos vícios que macularam a escola antiga e da iníqua repartição dos homens em castas de cidadãos livres e escravos. Ora, como São Paulo es­crevia aos Coríntios (1 Cor, 6, 18), o cristão deve fugir da imo­ralidade, e São Pedro lembrava na sua Primeira Epístola que Deus Pai julga cada um de acordo com as suas obras e sem fazer distin­ção de pessoas (1, 17), a repetir São Paulo, que escreveu aos Ro­manos: “Em Deus não há acepção de pessoas” (2, 11), tal como também falou aos Gálatas (2, 6).

A convicção profunda, que norteia os passos de todo cristão, está expressa no último capítulo da Epístola aos Hebreus: “Não temos aqui morada permanente, mas vamos em busca da futura” (13,14).

O espírito da formação cristã, o seu ethos, como diz Otto Willmann, representa em mais de um aspecto o inverso da educação greco-romana, que admitia o fator religioso como algo secundário, enquanto ele é o ponto verdadeiramente central para a educação cristã. Segundo o Cristianismo, ao receber o Batismo o homem começa a participar da vida divina da Santíssima Trindade. Essa participa­ção se tornou possível graças ao sacrifício redentor de Cristo, que restituiu ao homem a dignidade perdida pelo pecado original. A vida espiritual, que culminará no Céu, é alimentada neste mundo pelo aumento da graça santificante através da recepção dos sacra­mentos, da oração, da prática da virtude e das boas obras. Por isso, para a educação cristã a primazia não cabe mais à inteligência ou ao corpo, e sim à vida espiritual. Daí a importância do ambiente religioso para a boa formação cristã, uma vez que educar não vai significar apenas desenvolver o físico ou adestrar o intelecto através da instrução. 

O fator religioso é o ponto verdadeiramente central para a educação cristã.

(…)

O Cristianismo acrescentou novos elementos aos objetivos educacio­nais que o homem por natureza vem a colimar. Os gregos antigos, apesar dos desvios que permitiram em seus projetos de formação hu­mana, souberam exprimir de modo notável o ideal puramente humano da educação física, intelectual e moral. Sócrates, Platão, Aris­tóteles e Isócrates lançaram os fundamentos da educação humanís­tica e da formação da personalidade. Ora, tudo o que é natural e válido racionalmente é admitido pelo Cristianismo, pois, conforme o célebre anexim escolástico, “A graça supõe a natureza”. Como frisa muito bem William Kane, a contribuição do Cristianismo para a educação consiste em nova visão da verdade, em novo objetivo so­brenatural e em novos auxílios sobrenaturais dados à humanidade por Jesus Cristo. 

A doutrina cristã, por conseguinte, tem caráter basicamente peda­gógico em sentido amplo, uma vez que ela esclarece o homem e lhe propicia os meios necessários para alcançar o seu último fim, que não reside nos bens materiais mas na eterna felicidade.– Essa dou­trina revelada por Jesus Cristo foi ensinada e difundida pelos seus Apóstolos nos quatro Evangelhos, nos Atos, nas Epístolas e no Apo­calipse. No Novo Testamento encontram-se não apenas os ensina­mentos gerais da pedagogia sobrenatural do Cristianismo, como tam­bém normas e advertências a respeito da educação propriamente dita das crianças e dos jovens. 

Nos primeiros séculos da nossa era, os cristãos foram constante­mente perseguidos, e por isso, em matéria de educação formal, não podiam manter escolas próprias, mas confiavam os seus filhos aos estabelecimentos oficiais do Império Romano do Ocidente e do Oriente, assim como aos mestres particulares que mantinham pe­quenos e grandes centros de ensino. Nesse tempo, o primeiro cui­dado educacional dos eclesiásticos era com a formação catequética, já que os adultos convertidos ao Cristianismo deviam receber boa instrução religiosa tanto antes como depois do batismo, e uma vez que as crianças, apesar de receberem no lar a instrução religiosa, ti­nham o seu batismo geralmente diferido para a idade adulta. De­pois que a Igreja Católica obteve do Estado Romano, durante o go­verno do Imperador Constantino, a liberdade de professar a fé sem perseguições de qualquer espécie, os cristãos continuaram a enviar os seus filhos à escola pública, ao mesmo tempo que pouco a pouco se organizavam e aprimoravam os cursos religiosos freqüen­temente ministrados junto com as disciplinas seculares, e surgiam as escolas paroquiais e episcopais. Estes dois tipos de escolas vão organizar-se seriamente depois do século V e, juntamente com as es­colas monásticas, constituirão a rede de ensino público durante a Ida­ de Média. Durante o período patrístico, chamava-se de escola episcopal ao agrupamento de clérigos que se preparavam junto ao bispo para a vida ministerial de sacerdotes, e tal escola funcionava na própria residência do bispou na igreja que lhe servia de sé epis­copal.

A instituição monástica, tendo surgido primeiramente no Oriente, começou a ser introduzida na Europa durante o século IV, tomando impulso com o aparecimento da Ordem Beneditina, que espalha pelo Ocidente mosteiros e escolas e se torna durante a primeira Idade Média (500 a 1 .200 d. C. ) a educadora da Europa. 

São Bento

Para o aprofundamento no assunto deste post, recomendamos vivamente o livro do Prof. Ruy Afonso da Costa Nunes, História da Educação na Antiguidade Cristã.

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